Abra a sua cabeça, abra um vinho brasileiro! É com esse slogan que o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) pretende convencer os consumidores do Brasil e do mundo a esvaziarem a mente dos preconceitos e degustarem os rótulos nacionais.
A chamada deu certo com dois apreciadores de peso, que não apenas curtem o vinho elaborado em terra brasilis como assinam pelo artigo que simbolizará essa ideia e prometem defendê-los por onde passarem.
Os irmãos Humberto e Fernando Campana, designers paulistanos incensados nos circuitos mais antenados mundo afora, são as mentes e mãos por trás do saca-rolhas estilizado que compõe a campanha de promoção do vinho brasileiro. Antes mesmo de ser lançado, o item vem chamando a atenção até de quem não ligava muito para o tema de enologia e afins.
Por enquanto, o utensílio-escultura existe apenas como protótipo para aplicação nas peças publicitárias. Mas eles informam que estão em negociação com uma grande fabricante gaúcha de artigos para gastronomia a fim de viabilizarem a produção comercial do item.
Na véspera de lançamento da campanha de promoção dos Vinhos do Brasil, os Irmãos Campana receberam o Enoglob com exclusividade em seu estúdio em São Paulo, onde concederam com exclusividade a seguinte entrevista:
Enoblog: O saca-rolhas criado para a campanha de promoção dos vinhos brasileiros surgiu a partir de que ideia?
Fernando: A gente buscou na cadeira Coralli, que tem essas linhas congeladas no ar, e mesclamos com a inspiração da videira.
Humberto: Na verdade, o briefing já veio meio direcionado para um saca-rolhas e, a partir daí, viemos aperfeiçoando a ideia até chegar nessa forma. Pensamos em desenvolver um artigo que fosse como uma jóia: um artigo funcional, mas com uma esculturalidade e que pudesse também ser manuseado. Isso sem perder de vista a ideia da videira.
Enoblog: E qual o diferencial do design dos Irmãos Campana?
Fernando: O nosso design não é só comercial, ele tem que ter função. Se fosse só pela estética, iriam atrás de um artista plástico. Nesse projeto fizemos com o firme propósito dele funcionar, assim como nos nossos demais trabalhos, a cadeira tem que poder sentar, o sapato tem que poder calçar, a luminária tem que iluminar.
Enoblog: O design tem essa força, de promover um um produto, como o vinho brasileiro, por exemplo, a partir de uma peça-escultura?
Humberto: Com certeza, o design hoje tem essa força. Veja só o exemplo da Melissa Campana. Não somos só fashion-designers, projetamos móveis, fizemos um sapato. Viemos de um outro universo onde o design enriquece muito. É comum que marcas grandes da moda chamarem designers não ligados à moda para criarem peças-conceito.
Fernando: O destaque é a esculturalidade dela (da peça), pois é totalmente fora de um padrão do abridor. Por que normalmente o cabo é maciço, não é só de linha.
Enoblog: E vocês já tinham feito algo para esse setor nessa linha, para esse setor?
Humberto: Não, até então a gente gostava muito era de tomar vinho (risos). Família descendente de italianos, já viu, né.
Enoblog: E que tipo de vinho e marcas vocês apreciam?
Humberto: Gosto dos tintos, tem a Casa Valduga, tem muitas marcas boas no país. Mas adoro o cabernet sauvigon …
Fernando: Gosto da (variedade) Carmenére e do Cabernet (Sauvignon)…
Enoblog: O fato de serem brasileiros ajudou no reconhecimento de vocês como designers? Isso é positivo ou atrapalha?
Fernando: Isso ajuda muito. Até por isso, se a campanha for bem trabalhada lá fora, vai ser bem positiva. Hoje muita gente nos reconhece na rua. É engraçado, isso acontece em Milão, na Itália, tem gente que nos para na rua, há um certo assédio. Então, acho que o vinho vai ser bem representado.
Humberto: Com a globalização o mundo mudou muito. Hoje o diálogo norte-sul é muito mais intenso que há 10 anos. Antes era só norte-norte, envolvendo Estados Unidos e Europa. Hoje a modernidade envolve a África, toda a Europa, inclusive a há uma atenção muito grande para o nosso continente. Existe esse interesse pelo que se faz aqui.
Enoblog: E existe alguma marca que caracterize o design brasileiro?
Humberto: Ele não é tão racional. Eu diria que ele é muito mais emocional, intuitivo. Não é racional como o alemão, o escandinavo. E isso é muito positivo porque senão seria tudo mais padronizado.
Fernando: Nós potencializamos aquilo que os demais poderiam achar um erro, que o desgin não poderia ser emocional. E porque o emocional não pode ser bacana, não seria design também? Porque só pensar sob números, réguas, escalas, que é o certo? O brasileiro é 100% emoção. Se souber trabalhar isso de forma que venha uma resposta boa, de qualidade ou um produto bom, porque não?
Enoblog: Qual a diferença de vocês para os outros designers de renome no país?
Humberto: Muitos são fashion designers ou então atuam com outras aplicações. O Vic Muniz, por exemplo, não faz design, ele é um artista plástico. A gente faz móveis, cadeiras, luminárias, peças que têm alguma aplicação.
Enoblog: De que forma o saca-rolhas atende ao briefing passado?
Fernando: Eles nos chamaram para dar uma cara de modernidade, de contemporaneidade para o projeto. A gente adaptou uma linha que era de uma cadeira que está uma dúzia de museus no mundo todo e que também foi aplicada à melissa Grendene, que hoje sempre esgota e já não existe (para comprar). E sentimos que a ideia, mesmo já sendo utilizada em outros projetos, tem apelo forte para a modernidade.
Humberto: Pelo reconhecimento, isso também facilitaria a identificação do produto no Exterior.
Fernando: E eu acho que quando se consegue dar uma função ao que parece só um rabisco de criança, que é o que a gente quer, isso encanta as pessoas.
Fernando Assad Abdalla
www.doural.com.br
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